Pressão vinda de todo lado faz avançar agenda ESG no Brasil

São Paulo – A adesão genuína do mundo corporativo às agendas ambiental, social e de governança, reunidas na sigla ESG, deixou de ser uma opção para, na prática, se transformar num imperativo. Sob pressões que vêm de muitos lados — investidores, gestores e consumidores —, as empresas precisam rever suas práticas relacionadas a esses três pilares, sob pena de perder valor a longo prazo ou de enfrentar problemas de reputação que podem custar caro. Se, ao contrário, elas se engajam na preocupação com os efeitos ambientais de suas atividades, observam e ajustam a maneira como se relacionam com funcionários, fornecedores, consumidores, governos e sociedades e estruturam uma boa cultura corporativa, têm tudo para gerar valor e garantir perenidade.

Essas constatações resumem um pouco do que foi discutido por especialistas nos dois painéis do “ESG em foco”, primeiro Blue Chip Talks de 2021, evento online realizado pela Agência Blue Chip e que reúne grandes nomes para debater temas relevantes para gestores e investidores tomarem suas decisões e sentirem o pulso do que se espera das empresas neste momento tão desafiador para as economias.

Durante o evento, os participantes destacaram que, embora os conceitos ESG estejam a cada dia mais disseminados, ainda sentem falta do engajamento de um número maior de empresas grandes, além de condições para as pequenas e médias perceberem a importância desse tema como essencial para seu crescimento. Os especialistas também apontaram a necessidade de aprimorar os conselhos de administração e de métricas e padrões que ajudem os gestores e investidores a avaliar e comparar melhor os ativos.

Princípios ESG

O primeiro painel tratou de maneira ampla os pilares ESG, analisando o contexto do Brasil, e contou com o jornalista Rosenildo Ferreira, fundador e publisher do portal de notícias 1 Papo Reto. Para Laura Vélez, analista ESG da Fama Investimentos, as empresas parecem ter “despertado” antes dos investidores para questões ligadas à sustentabilidade. “Nos últimos dois anos o olhar para investimentos ESG ganhou um pouco mais de força aqui no Brasil e estamos no caminho certo, mas acredito que ainda temos uma longa jornada”, afirmou.

Maria Eugênia Buosi, sócia-fundadora da consultoria Resultante e professora da Saint Paul Escola de Negócios, destacou o fato de o pilar “G” estar na base do triângulo simbólico do ESG. “Sem uma governança bem arrumada, as práticas de sustentabilidade ambiental e as relacionadas a questões sociais não funcionam bem”, disse, acrescentando que ainda há muitos aprimoramentos necessários, principalmente para se escapar do “washing” – quando há discrepância entre o que uma empresa relata em termos ESG e o que de fato faz.

Maurício Colombari, sócio e líder de ESG da PwC Brasil, lembrou que no Brasil há empresas que operam em alto nível, formando uma espécie de ilha de excelência ESG. “A questão é como democratizar essa excelência, levando essas práticas também para empresas de menor porte”, destacou, ressaltando que muitas delas ainda lutam para apenas sobreviver.

Para Tatiana Assali, gerente de Finanças em Programas Sustentáveis da Sitawi Finanças do Bem, a padronização de indicadores ESG para análise e comparação de ativos é um desafio. O importante, segundo ela, é que os gestores e investidores possam encontrar padrões comparáveis e que continuem “subindo a régua” na hora de avaliar as empresas.

Fator social

O painel 2 abordou o universo relacionado às questões sociais do ESG e contou com a jornalista Marina Filippe, da revista Exame. Alberto Gaidys, sócio-fundador da Wright Capital Wealth Management, relatou como era difícil, há pouco mais de cinco anos, atrair mais gestores para o recorte ESG. Em resumo, observou, sobrava dinheiro e faltavam ativos, situação que veio se revertendo ao longo do tempo. “A ideia central é verificar o que a empresa faz para mudar o mundo”, disse, citando o ponto principal do investimento ESG. Essa dinâmica provoca mudanças nas empresas também quanto a fatores sociais, o que acaba gerando um círculo virtuoso. “O ESG diminui riscos, amplia a quantidade de investidores e reduz o custo de capital das empresas.”

De maneira semelhante, Hugo Bethlem, cofundador e presidente do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, afirmou que os aspectos ESG integram um ambiente mais amplo de transformação, identificado no conceito de capitalismo consciente. “Essa abordagem evidencia a forte interdependência dos agentes e permite que o capitalismo continue gerando prosperidade, mas sem os efeitos negativos da ideia de que as empresas servem apenas para gerar lucros para os acionistas”, sublinhou, numa referência ao chamado shareholder capitalism, que a cada dia perde mais espaço.

Para Ana Siqueira, cofundadora da Artha Educação e conselheira fiscal de empresas, esse privilégio aos acionistas já não era considerado como algo positivo na própria lei societária brasileira, a Lei das S.As., de 1976. “Tanto tempo atrás o legislador já estabelecia que as empresas devem cumprir seu objeto social respeitando o entorno. É exatamente o que defende o stakeholder capitalism”, disse. Ela lembrou também da importância das atitudes das empresas relacionadas à educação pública — que, na prática, é que vai formar os consumidores do futuro.

André Albuquerque, empreendedor social e fundador da Terra Nova Regularizações Fundiárias, mostrou como a experiência do grupo serve como um exemplo acabado da intenção de solucionar algum problema social contando com uma estrutura corporativa e com mecanismos de financiamento do mercado de capitais. A empresa, informou, atua na intermediação da regularização de posse de terrenos, de forma a tornar menos desagradável a vida de quem mora em favelas. “Queremos eliminar a precariedade, dar dignidade a essas pessoas”, destacou. Exatamente o que preconiza o “S” do ESG e, de maneira mais ampla, o capitalismo de stakeholders.

Autor: canalexecutivoblog

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