Brasileiro inventa tradutor de linguagem de sinais via smartphone

Existem cerca de 10 milhões de deficientes auditivos no Brasil, dos quais quase 5 milhões possuem surdez severa. Muitos não sabem português e se comunicam exclusivamente por LIBRAS, a língua brasileira de sinais.

A impossibilidade de escutar gera dificuldades diárias para essa população, inclusive em tarefas banais do dia a dia, como fazer compras no supermercado ou perguntar onde fica o banheiro em um estabelecimento comercial. Pior ainda é se precisarem de atendimento em serviços essenciais, como saúde. Em hospitais, se não conseguirem levar consigo um intérprete, os surdos correm o risco de receberem diagnósticos equivocados e terem prescritos remédios errados. Por outro lado, muitas fábricas costumam contratar surdos para cumprir a cota obrigatória por lei de ter 5% da força de trabalho composta por deficientes, no caso de empresas com mais de 1 mil empregados. Eles costuma ser preferidos porque não possuem nenhuma limitação física. Porém, a dificuldade de comunicação os impede de crescer dentro das companhias, pois ficam alijados dos treinamentos corporativos.

Para ajudar a comunidade surda, o professor Manuel Cardoso, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), criou uma tecnologia de leitura de gestos através e um aplicativo móvel, usando os sensores presentes no smartphone e algoritmos com inteligência artificial.

“A surdez é uma deficiência invisível. Quando você vê um cego você sabe que se trata de um cego. Já o surdo você não sabe, a não ser que tente conversar com ele. Isso dificulta a elaboração de políticas públicas. Em uma sociedade onde a comunicação ganha cada vez mais relevância, os surdos ficam ainda mais excluídos”, diz Cardoso, em entrevista para Mobile Time.

Com sua empresa Map Technology, Cardoso desenvolveu um aplicativo chamado Giulia (Android) que utiliza três sensores do smartphone para captar os gestos de quem fala LIBRAS: acelerômetro, giroscópio e magnetômetro. O telefone precisa estar preso a um dos braços do usuário, usando uma braçadeira, como essas típicas de quem faz jogging. Com o app ligado, o smartphone entende os gestos e os traduz para voz, de maneira que ouvintes que não conhecem LIBRAS consigam entender o que o surdo, dono do telefone, quis dizer. E também faz o contrário: traduz textos e frases faladas em português para LIBRAS, usando como avatar um boneco inspirado na figura do professor. Na prática, Cardoso inventou uma tecnologia de gesto para texto/fala e de texto/fala para gesto, similar àquelas de texto para fala e fala para texto, conhecidas como STT e TTS, nas siglas em inglês.

Na linguagem oral as pessoas têm diferentes sotaques e formas diferentes de falar. Em LIBRAS acontece a mesma coisa: a execução de um mesmo gesto é feita de maneira diferente por cada pessoa, às vezes mais ou menos rápido, ou de forma mais ou menos expansiva. Para superar esse obstáculo, foram adotadas técnicas de inteligência artificial, para que o aplicativo aprenda como seu usuário executa os sinais.

“A mesma pessoa não faz exatamente o mesmo sinal duas vezes. Da mesma forma como falamos de forma diferente a cada vez que falamos, também nos expressamos diferentemente com gestos. É um problema totalmente não linear. Então adotei uma abordagem com deep learning e inteligência artificial. É uma inovação disruptiva. Ao contrário das anteriores, que serviam para a comunicação do ouvinte para o surdo, agora é do surdo para o ouvinte”, compara Cardoso.

Com a colaboração de aproximadamente 100 deficientes auditivos durante a fase de testes, foram escolhidos 300 sinais para compôr o dicionário inicial de Giulia. O usuário precisa ensinar o app a maneira como realiza cada um deles. Na prática, é uma espécie de treinamento do aplicativo em cada smartphone, por cada pessoa surda. Esta executa cada um dos sinais cinco vezes, para o algoritmo aprender sua forma de expressá-lo. Essas informações ficam gravadas na nuvem: se o usuário perder o celular, basta reinstalar o app em um novo aparelho e recuperar o tradutor já treinado.

Os 300 sinais escolhidos inicialmente compõem um vocabulário básico para necessidades rotineiras. A ideia é ampliá-lo gradativamente, sempre com a ajuda da comunidade de pessoas surdas. Aliás, o projeto conta com o apoio do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines).

“O Giulia não substitui LIBRAS e nem a necessidade de as pessoas ouvintes aprenderem LIBRAS. É uma tecnologia que facilita a comunicação em ambientes de alta prioridade para os surdos. E vale lembrar que LIBRAS não consiste apenas da movimentação de um braço, mas também da expressão corporal e facial”, ressalta Cardoso.

O professor já solicitou a patente da invenção no Brasil e no exterior. Ele tem planos de internacionalizar o aplicativo, fazendo com que aprenda as línguas de sinais de outros países.

Vale destacar que Cardoso tem longa experiência com o desenvolvimento de tecnologias para acessibilidade, tendo desenvolvido décadas atrás um mouse controlado pelos olhos, para permitir que um tetraplégico usasse um computador pessoal.

Mais funcionalidades

Além do tradutor, foram incorporadas outras funcionalidades ao aplicativo, como uma babá eletrônica, que faz o telefone vibrar quando escuta o choro de um bebê – a ferramenta foi desenvolvida a pedido de mães surdas. Também há uma ferramenta para a geração de sinais a partir da leitura de QR codes, funcionalidade adotada por empresas em comunicados internos pregados em murais, para que seus funcionários surdos possam entendê-los. Está nos planos desenvolver no futuro um alerta em caso de buzinas, outro problema vivido pelos surdos no dia a dia, quando andam pelas ruas das grandes cidades.

Apoio da indústria

O aplicativo está sendo testado por funcionários surdos das fábricas da Honda e da Whirlpool em Manaus. Além disso, recebeu o apoio da Alcatel, cuja família mais recente de smartphones passou pelo processo de homologação da Map Technology para o uso da Giulia. A TIM, por sua vez, incluiu o app em seu programa de Open Innovation. “Ficamos encantados com o projeto, que é de grande impacto social. O que conseguimos fazer é abrir portas para eles. Damos suporte para trazê-los para o ecossistema de telecom. Isso significa aproximá-los dos fabricantes de terminais, entender a interação do app com o smartphone e com as redes de telecom e abrir canais para distribuir a solução”, explica Janilson Bezerra, diretor de inovação e desenvolvimento de negócios da TIM. A operadora pretende ajudar a levar o Giulia para a Itália, com apoio de sua controladora, e também adotar a solução internamente, para seus funcionários no Brasil, o que facilitará a contratação de pessoas com surdez severa.

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